O que é Filosofia das Artes Marciais

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Filosofia das artes marciais é um termo muito difundido no meio das lutas. Apesar disso, nem todos sabem dizer o que é, nem tem um entendimento claro sobre filosofia das artes marciais.

Por se tratarem de práticas prioritariamente físicas, as artes marciais são melhor compreendidas através de sua execução do que pelas palavras. Isso inclui também a compreensão sobre seus conceitos filosóficos.

Neste artigo, tentarei mostrar um pouco do que é a filosofia das artes marciais, e sua aplicação fora das áreas destinadas à prática de lutas.

 

O que é Filosofia

A palavra filosofia vem do grego philosophia, que significa “amor pela sabedoria”. O dicionário Aurélio define filosofia da seguinte maneira:

  1. Amor pelo saber, e, particularmente, pela investigação das causas e dos efeitos;
  2. Sistema particular de um filósofo célebre, de uma escola, de uma época;
  3. Elevação do espírito, razão, resignação, que nos coloca acima dos acidentes da vida, dos falsos preconceitos, do amor das riquezas, etc.
  4. Amor ao saber, sabedoria;
  5. Filosofia racional: psicologia e lógica;
  6. Filosofia do conhecimento: o mesmo que epistemologia.

Como pode ver, a definição sobre o que é filosofia não é tão simples, havendo uma gama muito grande de interpretações. Existe até uma ciência, chamada Metafilosofia, que se dedica a refletir sobre o que é filosofia e qual é o seu papel.

Das definições expostas anteriormente, a que mais se aproxima do entendimento sobre filosofia buscado pelo praticante de artes marciais é a terceira. A elevação do espírito, razão e resignação, tornando o artista marcial capaz de superar as paixões humanas é a proposta da filosofia nas artes marciais.

Vejamos um pouco mais sobre a filosofia vivenciada no contexto das artes marciais à seguir!

 

Filosofia e Artes Marciais

A Wikipedia define artes marciais como sendo “disciplinas físicas, divididas em diferentes graus, que tem como objetivo um autodesenvolvimento de seus praticantes para que possam se defender ou submeter o adversário mediante diversas técnicas…”

Analisando esta definição, podemos concluir que através do autodesenvolvimento, o praticante torna-se capaz de se defender, ou seja, a autodefesa é consequência do autodesenvolvimento, e não o contrário.

Para que uma pessoa consiga passar por esse processo de autodesenvolvimento através das artes marciais, um elemento é fundamental: o mestre. É preciso que alguém que já conheça aquela prática o ensine.

O mestre é alguém que tomou conhecimento de determinada arte marcial antes de você, e que se encontra apto a ensiná-la da forma correta.

Com o mestre, espera-se aprender não só formas de ataque e defesa, mas conceitos profundos, que levam ao autodesenvolvimento e autoconhecimento.

 

O caminho do aprendizado em artes marciais

O caminho para o aprendizado em artes marciais é longo, e passa por momentos distintos. Em um primeiro momento, o praticante tem como objetivo melhorar física e tecnicamente, para que possa superar seus adversários. Este é o nível de prática em que se encontram a maioria dos centros de treinamento de luta, onde os combates e torneios são priorizados.

Conforme o artista marcial evolui em sua prática, seu objetivo maior passa a ser o autoconhecimento e aumento da “força interna”, também conhecida como Ki ou Chi. Superar a si mesmo passa a ser mais importante do que superar um adversário externo.

Existem artes marciais onde o foco é justamente o desenvolvimento desta capacidade de desenvolver esta força interna, como Tai Chi Chuan, Pa Kua Chang e Chi Kung.

Segundo o samurai mais famoso da história, Miyamoto Musashi:

“Não existe nada fora de você que permita que você se torne melhor, mais forte, mais rico, mais rápido ou mais inteligente. Tudo vem de dentro. Tudo existe. Não procure nada fora de si mesmo”.

No nível mais alto de desenvolvimento, o praticante, além de grande força interior, é capaz de aplicar os conceitos aprendidos nas artes marciais em qualquer área de sua vida. Sobre isso, Miyamoto Musashi disse: “Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho”.

A capacidade de transmitir seus conhecimentos e a sabedoria adquirida ao percorrer o caminho das artes marciais é uma característica do praticante avançado.

Transmissão de conceitos filosóficos através da prática de artes marciais

Muitos praticantes afirmam aprenderem valores nas artes marciais que levam para sua vida diária. A forma de transmissão desses valores pelo mestre ou instrutor varia bastante. As artes marciais são instrumentos que permitem o aprendizado destes valores mesmo sem haver sua transmissão através de palavras.

Apesar da tendência atual de separação entre corpo e mente, na verdade o ser humano aprende de forma integral. A criança usa o corpo para aprender e se expressar. Por exemplo, quando perguntada sobre sua idade, ela usará a mão, com a quantidade de dedos correspondendo à idade. Até a própria comunicação humana se dá, em grande parte, de forma não verbal, sendo o corpo o instrumento para que haja esta comunicação.

Ao treinar uma arte marcial, o praticante passa por experiências que o estimulam a desenvolver conceitos profundos. Por exemplo, se você é um praticante que está treinando com alguém mais fraco fisicamente, terá que controlar sua força, para que seu parceiro não saia ferido e que o treino renda para os dois. O conceito aprendido neste caso é o autocontrole.

Em outra situação, quando é pedido para que você execute 30 flexões de braço, por exemplo, e você não é capaz de realiza-las, será estimulado a treina-las até que consiga executar este número de flexões, o que exigirá de você persistência.

Em um outro artigo, trato da questão “aprender com o corpo”, onde conceitos abstratos são aprendidos de forma prática, sendo seu corpo o principal instrumento para este aprendizado.

Para uma maior compreensão sobre os conceitos filosóficos aprendidos durante os treinos, o ideal é que o praticante reflita sobre o que aprendeu de novo em cada treino, não apenas no ponto de vista técnico, mas principalmente sobre quais das lições aprendidas podem ser aplicadas em sua vida cotidiana, e como isso seria feito.

A prática da meditação também é uma aliada na busca do autoconhecimento e da compreensão da filosofia das artes marciais, e o ideal é que seja incorporada na rotina do praticante.

 

Conclusão

Corpo e mente são indissociáveis. É preciso que o ser humano se enxergue de forma integral, e cuide tanto do corpo quanto da mente.

As artes marciais são práticas filosóficas, que têm no corpo o instrumento para sua compreensão. Assim como você não conseguirá compreender os conceitos do zen sem que haja prática de sua parte, não será capaz de entender de forma integral os conceitos filosóficos das artes marciais sem treinar e refletir sobre o que foi aprendido.

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Um abraço!

 

 

 

 

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